FÓRUM RICOT 2018 – Nota Editorial Livro “Segurança Ocupacional em Transportes”

Nota editorial

Hernâni Veloso Neto e João Areosa

1
Capítulo 1
Segurança rodoviária no âmbito do trabalho

Alberto Silveira

11
Capítulo 2
Estratégia de avaliação de riscos ocupacionais rodoviários

Ana Luísa Teixeira, Alberto Silveira, Hernâni Veloso Neto

45
Capítulo 3
Sistema de gestão da segurança rodoviária ocupacional

Ana Luísa Teixeira, Alberto Silveira, Hernâni Veloso Neto

66
Capítulo 4
Veículos Autónomos: Uma nova esperança para a segurança dos trabalhadores das vias rodoviárias ativas

Francisco Pinto da Silveira, Luís Fontes Machado

85
Capítulo 5
Acidentes de viação com tratores

Carlos Montemor, João Areosa, Luísa Veloso

116
Capítulo 6
Acidentes de trânsito no Brasil: Um desafio à segurança do trabalhador no modal de transportes terrestres

Cleiton Faria Lima

141
Capítulo 7
Condições de trabalho e impacto na saúde e audição de motofretistas no Brasil

Juliana De Conto, Cláudia Giglio de Oliveira Gonçalves

158
Capítulo 8
Acidentes de trabalho numa empresa do setor ferroviário: incentivos, riscos e intensificação laboral

João Areosa, Carla Gonçalves

175
Capítulo 9
Segurança e saúde dos trabalhadores: a experiência dos metroviários de São Paulo/Brasil

Cristiane Queiroz B. Lima, Daniela Sanches Tavares, Maria Maeno

198
Capítulo 10
Trabalhadores atropelados na linha férrea: quando a atenção e as regras são insuficientes

Leandra Antunes, Rodolfo Andrade de Gouveia Vilela, Ildeberto Muniz de Almeida

229
Capítulo 11
Escoamento Multimodal de Cargas: Estudo Preliminar na Hidrovia Tietê-Paraná

Gerikson Beserra Nunes, Sonia Maria José Bombardi

248
Capítulo 12
Pesca em Portugal: Segurança e Saúde no Trabalho

Inês Quintino

263
Capítulo 13
Segurança e Acidentes no Trabalho Portuário: a Percepção dos Estivadores Portugueses

Maria de Fátima Ferreira Queiróz, João Areosa

278
Capítulo 14
Condições de trabalho dos pilotos brasileiros

Ana Cristina Fabres, João Areosa

300
Capítulo 15
Avaliação de riscos e segurança ocupacional nas atividades de assistência em escala (Handling)

Sara Sofia Ferreira da Silva, Pedro Luís Cardoso dos Santos, Rute Isabel Bernardo Marques Casimiro

321
 

 

 

NOTA EDITORIAL

Os meios de transporte têm ganho uma preponderância significativa nas sociedades contemporâneas. Cada vez mais se torna impensável equacionar uma sociedade desenvolvida e moderna, sem uma rede extensiva e diversificada de meios de transporte. Apesar de se poder dizer que os meios rodoviários continuam a prevalecer, as últimas décadas trouxeram uma crescente diversificação, com os transportes aéreo, ferroviário e naval a afirmarem-se como alternativas, em particular na aviação, com o aumento da oferta e melhoria da relação custo-benefício para os clientes.

A circulação de pessoas e mercadorias nos grandes centros urbanos e entre esses centros, inclusive no plano internacional, vem ganhando mais preponderância política, legislativa e cívica, configurando-se mesmo como um dos desafios atuais ao desenvolvimento sustentável das cidades e dos países. Com a globalização e a concentração populacional e laboral nas grandes urbes, as redes de transportes tornaram-se uma área sensível e de forte exigência política e operacional. As grandes cidades da atualidade funcionam e crescem assentes em complexos modelos de gestão de transportes, que exigem constante atenção, intervenção e atualização.

A maioria das cidadãs e cidadãos terá dificuldade em conceber o seu dia-a-dia sem o auxílio de um meio de transporte, seja para as suas deslocações pessoais seja para as profissionais. Esta situação ajuda a demonstrar a importância que estes meios assumem. A vida quotidiana é estruturada e concretizada em função dos meios de transporte que se dispõe ou a que se tem acesso. Mas até aqui, poder-se-ia dizer nada de novo. As leitoras e leitores não deverão ter dificuldade em idealizar este cenário, até pela própria vivência diária. Porventura, aquilo que não será tão percetível tem que ver com a perspetiva do sector dos transportes como uma vasta área profissional ou com intervenção, direta ou indireta, no exercício ocupacional de biliões de pessoas em todo o mundo, situação que tem fortes implicações em termos de segurança e saúde ocupacional.

Os meios de transporte são parte objetiva do desempenho laboral dos trabalhadores e das organizações, isto porque algumas fazem disso o seu core business (empresas de transporte rodoviário de pessoas ou mercadorias, empresas de aviação, etc.), outras porque são dos elementos que concorrem para que possam concretizar a sua atividade. Esta disposição é tão verdadeira para as organizações como para cada trabalhador/a considerado/a a título individual. Qualquer trabalhador/a vai necessitar de se deslocar para poder realizar o seu trabalho, socorrendo-se de um meio de transporte para o efeito, seja ele coletivo ou individual. Uma parte significativa das pessoas até passará grande parte da sua jornada de trabalho em trânsito, movimentando-se entre diferentes locais (ex: comerciais). A menos que o/a trabalhador/a more “a dois passos” do seu local de trabalho, que serão as meras exceções à regra, sem um meio de transporte não vai conseguir desempenhar a sua atividade profissional. Logo, as deslocações em meio de transporte são uma condição sine qua none do exercício ocupacional, devendo ser consideradas ao nível da avaliação e controlo dos riscos que as organizações são obrigadas a realizar por lei (e até moralmente), mesmo para o contexto das deslocações casa-trabalho e trabalho-casa (a legislação prevê e considera como acidente de trajeto esses casos – ver Lei n.º 98/2009, de 4 de setembro). Para além disso, com o aumento progressivo das redes de transportes, é cada vez maior o número de pessoas a trabalhar como profissionais de transporte, muitas em contexto de atividades de risco elevado (ex: aviação comercial ou militar), o que também representa fortes exigências no plano da gestão das atividades de segurança e saúde no trabalho.

A parte da segurança e saúde das/os trabalhadoras/es das áreas rodoviária, ferroviária, aeroportuária e naval acaba por estar menos visível e cognoscível para a maioria das pessoas, em particular a parte rodoviária, remetendo-se tudo para o domínio da segurança rodoviária pública. Mas não se pode ignorar que as organizações têm responsabilidades no domínio da segurança rodoviária ocupacional, que se estendem o todo o tipo de entidades, e não só às empresas de transporte de pessoas e mercadorias. O mesmo se estende às áreas ferroviária, aeroportuária e naval, não pode existir apenas preocupação com a maquinaria e os produtos e clientes transportados (security – segurança comercial). As condições de trabalho, de saúde e segurança da/os trabalhadoras/es não podem ser ignoradas (safety – segurança operacional), devem estar mesmo em primeiro lugar, porque se o safety estiver acautelado, a probabilidade de o security também estar será muito superior. O princípio é elementar, trabalhadoras/es em risco colocam equipamentos, produtos, clientes e demais população em risco. Nesse sentido, é preponderante que as organizações disponham de boas abordagens e sistemas de segurança capazes para lidarem com a componente de transportes associada às suas atividades.

A ideia e estruturação do livro estão assentes nos seguintes princípios: os meios de transporte são praticamente indissociáveis das atividades profissionais (e pessoais), logo deverá existir avaliação e controlo de riscos de exposição, sendo uma obrigação legal das organizações fazer esse diagnóstico e intervenção. Nesse sentido, compilou-se um conjunto diverso de textos que permitissem fazer um retrato alargado das diferentes áreas, embora sem o fazer de modo exaustivo. Nunca se teve a ambição de compilar uma obra que abordasse todas as realidades sectoriais em detalhe e ao pormenor, até porque isso seria uma tarefa infindável. Assim, o livro deve ser visto como um contributo para se compreender um pouco mais das exigências de gestão da segurança ocupacional na área dos transportes, fornecendo testemunhos de abordagens e sistemas preconizados ou que podem ser concretizados. Grande parte dos capítulos sustenta-se em casos práticos e/ou dados/situações reais, facilitando a compreensão e a tangibilidade das exigências e necessidades.

No capítulo um, Aberto Silveira aborda a importância da segurança rodoviária no âmbito do trabalho. Defende que as lesões causadas pelos acidentes rodoviários são um problema de saúde pública de magnitude considerável e de intervenção preventiva prioritária, não sendo apenas um mero derivado da mobilidade dos veículos. Os acidentes rodoviários de trabalho devem ser atendidos de forma séria e consistente, tanto do ponto de vista de prevenção da sinistralidade laboral como do ponto de vista da prevenção da sinistralidade rodoviária. Mas isso exige uma abordagem através do “sistema seguro”, baseado num programa de gestão do risco rodoviário ocupacional em que se define uma política de condução para o trabalho, se efetua uma avaliação dos riscos decorrentes da condução em trabalho, considerando nomeadamente os condutores, os veículos e as jornadas de condução, e se mede e procura melhorar o desempenho de segurança e do sistema seguro.

No capítulo dois, Ana Luísa Teixeira, Alberto Silveira e Hernâni Veloso Neto sugerem uma estratégia de avaliação de riscos ocupacionais rodoviários. Referem que são diversas as profissões em que a condução corresponde à atividade principal do/a profissional, como os/as motoristas de transportes de mercadorias e/ou de passageiros, sendo que, em muitas outras, a condução não é a atividade principal, mas ocupa uma percentagem de tempo de trabalho relevante ou é mesmo incontornável. Além disso, importa ainda não descurar que o período normal de deslocação casa-trabalho e trabalho-casa está incluído no conceito legal de tempo de trabalho. Esta circunstância coloca milhões de trabalhadores todos os dias suscetíveis a riscos rodoviários ocupacionais, daí que estas exposições tenham de ser englobadas nas avaliações de riscos, mesmo nas atividades profissionais nas quais a condução não seja a atividade principal. Em suma, veiculam que a condução ou circulação numa viatura na estrada pode ser um risco profissional, sendo que esse risco deverá ser avaliado e integrado na política de prevenção de riscos profissionais das organizações, tal como acontece com os demais riscos inerentes à sua atividade.

No capítulo três, Ana Luísa Teixeira, Alberto Silveira e Hernâni Veloso Neto abordam como as organizações podem estruturar um sistema de gestão da segurança rodoviária ocupacional. Uma vez que a avaliação de riscos rodoviários ocupacionais é obrigatória nas organizações que têm perigos a este nível, as mesmas devem planear um sistema coerente de gestão desses riscos. A atividade de avaliação, por si só, não é suficiente, defendem a necessidade das organizações, em particular as que detenham um grande fluxo de pessoas e/ou veículos em circulação rodoviária, desenvolvam um Sistema de Gestão de Segurança Rodoviária Ocupacional. Este tipo de sistema permite melhorar a segurança das/os trabalhadoras/es nas atividades de condução em missão e de trajeto e salvaguardar a satisfação dos clientes, com uma redução dos riscos associados e impactes negativos dos incidentes rodoviários nos produtos e serviços fornecidos, contribuindo para o aumento da produtividade e rentabilidade da empresa, numa base de evolução sustentada. Argumentam que este tipo de abordagem facilita toda a componente de gestão de viaturas, fornecendo, ainda, importantes contributos noutras dimensões, tal como o perfil e as práticas de condução, permitindo sinalizar necessidades de intervenção no domínio das competências de condução das/os trabalhadoras/es (atitudes, comportamentos e conhecimentos).

No capítulo quatro, Francisco Pinto da Silveira e Luís Fontes Machado focam a segurança das/os trabalhadoras/es das vias rodoviárias ativas. Apesar de não existirem dados estatísticos esclarecedores sobre a sinistralidade nos trabalhos em vias rodoviárias ativas, com relativa facilidade se depreende que seja uma atividade com elevada severidade. Esta sinistralidade não tem como origem principal os riscos da atividade em si. A fonte de risco reside, inequivocamente, no binómio trabalho/circulação rodoviária. Se para as/os trabalhadoras/es a ameaça reside no tráfego, para as/os condutoras/es os trabalhos criam entropias geradoras de perigos, tanto mais significativos quanto maiores forem os constrangimentos. Em Portugal, a abordagem normativa e legal é, essencialmente, na perspetiva da Segurança Rodoviária, centrada na preocupação com as/os condutoras/es. Os recentes avanços tecnológicos nos veículos autónomos pode perspetivar que o paradigma citado se inverta radicalmente, permitindo a quem diariamente trabalha em vias rodoviárias ativas não esteja permanentemente em risco de ter a sua vida ceifada por um condutor que invada a sua zona de trabalho.

No capítulo cinco, Carlos Montemor, João Areosa e Luísa Veloso abordam a problemática dos acidentes de viação com tratores. O trabalho agrícola, pecuário e florestal apresenta particularidades e condicionalismos específicos que o tornam singular e expõem as/os trabalhadoras/es a inúmeros fatores de risco de acidente. A entrada de Portugal na União Europeia permitiu uma enorme evolução da mecanização das principais tarefas, sendo o trator a principal máquina utilizada. A mecanização trouxe riscos específicos associados tanto aos órgãos móveis de máquinas como à mobilidade dos tratores. Os tratores são o agente material associado a muitos dos acidentes ocorridos, tanto no interior das explorações como nas estradas nacionais. Partindo da análise de informação resultante de fontes oficiais, analisam os acidentes de viação ocorridos nas estradas portuguesas para percecionar a dimensão e a localização da respetiva sinistralidade, e no sentido de promover a redução dessa sinistralidade, propõem medidas para o seu combate.

No capítulo seis, Cleiton Faria Lima analisa os acidentes de trânsito no Brasil enquanto desafio à segurança do/a trabalhador/a no modal de transportes terrestres. Indica que os acidentes de trânsito são um motivo de preocupação em todo o mundo. As Nações Unidas pautaram o tema em sua agenda e instituíram a Década de Ação para a Segurança Viária 2011-2020, que juntamente com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, objetivam a diminuição em 50% nos óbitos no trânsito. No Brasil, os óbitos no trânsito crescem a cada ano o que aponta que dificilmente esta meta será cumprida no país. Aos diversos riscos no trânsito, estão expostos também trabalhadoras/es, tais como motoristas e motociclistas. Alguns dos fatores que podem contribuir ou prejudicar a segurança para destas/es trabalhadoras/es são as más condições das vias, a má sinalização, a fiscalização insuficiente e a organização do trabalho inadequada. Dado o cenário, defende ser necessária uma maior articulação entre Governo, Entidades Patronais e Trabalhadoras/es para criação de leis e políticas públicas que contribuam para a prevenção de acidentes de trânsito e, consequentemente, na redução dos óbitos, tanto para as/os trabalhadoras/es deste modal quanto para a população em geral.

No capítulo sete, Juliana De Conto e Cláudia Giglio de Oliveira Gonçalves analisam as condições de trabalho e o impacto na saúde e audição de motofretistas no Brasil. O grande desenvolvimento urbano ocorrido nas últimas décadas vem acarretando uma maior dificuldade na mobilidade urbana com consequentes inadequações no sistema de transportes. Nesse contexto, o mototaxi e o motofrete surgem como uma alternativa de transporte urbano. Além da agilidade na mobilidade urbana, essas novas modalidades também foram impulsionadas pelas mudanças no cenário económico e pelas altas taxas de desemprego, tornando-se uma oportunidade de renda adicional. A recente regulamentação dessas profissões no Brasil não foi acompanhada de melhorias significativas nas condições de trabalho. Existem, por exemplo, profissionais consideradas/os clandestinas/os em diversos municípios, exercendo a atividade de maneira informal ou em regime de dupla jornada de trabalho. Assim, a motocicleta como ferramenta de trabalho torna o/a trabalhador/a vulnerável ao processo saúde/doença e aos acidentes, ocasionados pelos diversos riscos presentes no exercício dessas atividades. Este cenário torna-se um desafio aos profissionais da SST. No texto, as autoras discutem as condições de trabalho e a perceção de profissionais que usam a motocicleta, com ênfase na exposição ao ruído de trânsito.

No capítulo oito, João Areosa e Carla Gonçalves analisam os acidentes e condições de trabalho numa empresa do setor ferroviário. Argumentam que na era da globalização, a intensificação do trabalho generalizou-se a quase todos os setores de atividade e profissões. Esta intensificação surge principalmente através da organização do trabalho e das inovações tecnológicas, que aumentam o volume de trabalho que cada trabalhador/a tem de produzir. Esta tendência cria novos riscos laborais e consequências negativas para a saúde física e mental dos trabalhadores. O aumento da produtividade é conseguido através da diminuição das condições de trabalho, o que se relaciona, complexamente, com a questão dos incentivos nas relações laborais e cria conflitos de interesses entre trabalhadoras/es e empresas.

No capítulo nove, Cristiane Queiroz Lima, Daniela Sanches Tavares e Maria Maeno refletem sobre a experiência dos metroviários de São Paulo/Brasil ao nível da segurança e saúde das/os trabalhadoras/es. Indicam que a importância da experiência dos metroviários de São Paulo em defesa de melhores condições de trabalho e proteção à saúde extrapola a categoria, sendo uma referência para as/os trabalhadoras/es que lutam por conquistas sociais. A partir dos primórdios de sua organização na cidade de São Paulo foram destacados o despertar do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Metroviários e em Empresas operadoras de veículos leves sobre trilhos no Estado de São Paulo, para as questões relacionadas à segurança e saúde no contexto do trabalho e a busca do conhecimento das reais condições de trabalho junto à base de trabalhadoras/es. Nesse contexto, em 2012 teve início um processo de integração entre o conhecimento técnico-sindical do trabalho real e o conhecimento científico entre trabalhadoras/es do metro, seus dirigentes sindicais e pesquisadores da Fundacentro. Os resultados são apresentados neste texto, no qual são apontadas necessidades de aprofundamento de temas recorrentes e de aperfeiçoamento de instrumentos legais que possam ser aplicados com efetividade na melhoria das condições de trabalho.

No capítulo dez, Leandra Antunes, Rodolfo Vilela e Ildeberto Muniz de Almeida analisam a problemática das/os trabalhadoras/es atropelados na linha férrea. Defendem que o transporte ferroviário metropolitano de passageiros é um ambiente de trabalho complexo com elevado potencial de riscos de acidentes do trabalho. Com o objetivo de analisar casos de atropelamento de trabalhadoras/es por comboio, utilizam o Modelo de Análise e Prevenção de Acidentes de Trabalho (MAPA), que propõe uma abordagem em profundidade, sistémica, a partir de conceitos como análise do trabalho habitual, análise de mudanças, análise de barreiras, e ampliação conceitual. No estudo realizado ficou patente que o acidente de trabalho é tratado de maneira reducionista, como evento causado pelo comportamento inadequado das/os acidentadas/os, sem considerar a complexidade nas formas de trabalho, perdendo-se a oportunidade de melhoria e aprendizagem organizacional.

No capítulo onze, Gerikson Beserra Nunes e Sonia Maria José Bombardi falam do escoamento multimodal de cargas, tendo por base um estudo preliminar na Hidrovia Tietê-Paraná. O texto além de descrever o estudo inicial do projeto de pesquisa da Fundacentro – “Estudo sobre Novas Tendências no Setor de Transportes: Impactos e Perspectivas no Trabalho no Setor Hidroviário e Ferroviário”, disserta sobre as características do escoamento de carga Porto Intermodal de Pederneiras/SP, integrante do Sistema Hidroviário Tietê-Paraná, que é um grande sistema de transporte fluvial e multimodal. A cooperação dos modais hidroviário e ferroviário possuem muitas vantagens em relação ao rodoviário, sobretudo, por ser mais seguro, menos poluente e mais barato. Além de analisar o perfil e os dados estatísticos, pretendem promover recomendações que possam contribuir para a melhoria das condições de trabalho nos modais hidroviário e ferroviário de transporte, explorando suas características peculiares.

No capítulo doze, Inês Quintino analisa a atividade de pesca em Portugal numa ótica de SST. Aponta que a atividade da pesca desenvolve-se em ambiente aquático, em embarcações com comprimento variável, de muito pequenas a muito grandes. Depende muito das condições atmosféricas, da estabilidade das embarcações, das artes de pesca utilizadas para recursos marinhos alvo e disponíveis no momento da atividade de pesca, das condições de trabalho e do tipo de esforço humano realizado. As condições de trabalho e vida a bordo dos navios de pesca podem ser muito duras, uma vez que se prestam em espaços exíguos, com ritmos de trabalho condicionados pela distância entre o porto e o pesqueiro. Nos últimos anos, com a intensificação da ação da administração do trabalho e a contínua ação dos serviços de segurança no trabalho, a prevenção de acidentes de trabalho tem vindo a incluir abordagens que minimizam os problemas derivados das carências de organização e métodos de trabalho. Ainda assim, acredita que a segurança no sector das pescas não tem tido melhorias acentuadas e os pescadores continuam a ter dificuldades em considerar as mudanças prioritárias.

No capítulo treze, Maria de Fátima Ferreira Queiróz e João Areosa abordam a segurança e acidentes no trabalho portuário, com particular incidência na perceção dos estivadores. O texto procura abordar a problemática dos riscos e acidentes no ambiente de trabalho a partir da fala dos trabalhadores portuários. Permeiam-se na escrita as falas e os aspetos conceituais suscitados pelos autores. O texto é construído em uma abordagem qualitativa tendo por base a pesquisa “Trabalho e Saúde dos Trabalhadores Portuários de Lisboa: estudo comparativo com o Porto de Santos-Brasil”, desenvolvida em 2015 e explora a perceção (significado) dos trabalhadores do porto de Lisboa, Figueira da Foz e Sines, sobre saúde, segurança e incidentes e acidentes no desenvolvimento do trabalho. Têm em conta que cada trabalhador portuário se encontra sujeito a uma enorme quantidade de riscos no seu quotidiano e nesta condição a análise de riscos é o primeiro passo para se poder materializar um certo controlo desses mesmos riscos; embora, por vezes, esse controlo seja mais imaginário do que real, pois nunca se consegue percecionar e esconjurar todos os riscos aos quais as pessoas se encontram sujeitas.

No capítulo catorze, Ana Cristina Fabres e João Areosa analisam as condições de trabalho dos pilotos de aviação brasileiros. Focam a atividade laboral dos pilotos brasileiros de linha aérea (aviação comercial), levando em consideração as suas condições de trabalho, a tecnologia sofisticada que utilizam e como esses fatores podem influenciar profundamente a segurança neste setor. Ao nível metodológico e para operacionalizar a pesquisa no terreno recorreram a entrevistas aos pilotos que circulavam num aeroporto brasileiro. A análise de conteúdo efetuada a essas entrevistas, em articulação com a literatura científica deste ramo de atividade, permitiu compreender e explicar diferentes facetas desta profissão, nomeadamente que os pilotos estão expostos a múltiplos fatores de risco, decorrente da especificidade das suas condições de trabalho, os quais condicionam a sua saúde e a forma como executam o seu trabalho.

No décimo quinto capítulo, Sara Silva, Pedro Santos e Rute Casimiro abordam as exigências e especificidades da avaliação de riscos e segurança ocupacional nas atividades de assistência em escala (Handling). Primeiramente, abordam a Assistência em Escala e a Segurança, sendo focado o enquadramento da atividade de Handling e a diferença entre a Segurança (Security) e Segurança Operacional (Safety). Depois analisam a segurança operacional e a importância da formação como seu pilar, evidenciando o relevo de um programa de Safety e do sistema de saúde ocupacional num Handler. Por fim, em virtude do Handling ser um dos sectores de atividade onde as/os trabalhadoras/es estão, constantemente, expostos a exigências extra organizacionais, como pressões de tempo, horas de trabalho inconvenientes, responsabilidade pela segurança e pela vida dos outros, aborda-se a incidência do stresse nesta atividade. Através da investigação realizada, numa abordagem enquanto problema organizacional e não de falha individual, concluíram que o stresse pode ser controlado da mesma maneira que qualquer outro risco de saúde e segurança no local de trabalho. Tudo dependerá de como a conceção, organização e gestão do trabalho e seus contextos são pensados e como se geram as suas interferências na saúde e segurança desses profissionais.

Como ficou patente, congregou-se um conjunto diversificado de textos que deixa evidente a heterogeneidade da área dos transportes, mas, também, as diferentes exigências ao nível da gestão da segurança e saúde ocupacional. Os meios de transporte quase que são indissociáveis das atividades profissionais e das ocupações em geral. Mesmo que não sejam o foco da atividade, contribuem direta ou indiretamente para esse propósito, logo têm que ser considerados parte integrante, mesmo ao da avaliação e controlo de riscos. Essa gestão de segurança e saúde ainda se tona mais complexa quando se interligam áreas distintas dos transportes e cruzam riscos ocupacionais. Isso ficou manifesto em alguns textos, mas, cada vez mais, será a realidade de muitas organizações, com a necessidade das/os trabalhadoras/es terem que recorrer as meios de transporte complementares para concretizarem a sua atividade (ex: avião e carro, comboio e metro). As organizações têm que estar preparadas para lidar com estes desafios e ter sistemas de segurança robustos e integrativos que permitam contemplar e prevenir os riscos associados. Espera-se que este livro possa contribuir para ajudar as organizações a lidar com alguns dos desafios enunciados, se não for mais, pelo menos que sirva de instrumento de informação e sensibilização para a necessidade de agir e acautelar sempre a segurança e saúde das/os trabalhadoras/es, porque são o principal recurso e capital de qualquer organização.

Porto, Julho de 2018

Hernâni Veloso Neto

João Areosa

 

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Rede de Investigação sobre Condições de Trabalho

Posted on September 27, 2018, in Fórum RICOT and tagged , , . Bookmark the permalink. Leave a comment.

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